Ultimamente ando em estado de receber. Ciente da minha condição de doadora e de que só doa, quem tem para dar (e falo aqui muito além do campo material), a matemática da vida se faz exata. É no porvir que se compreende porque as coisas estão perfeitas do modo que são. E esta tranquilidade pela mortalidade, que é certa, e pela consciência, que sempre direciona o caminho, é permitido se centrar no bem que se faz.

Entende-se que o barulho dos outros é realmente dos outros. Como conseguir entender o peso do fardo que cada ser carrega? Mas é permitido sentir o próprio peso da existência em si. Ou da leveza, depende de quem opera esta máquina fantástica chamada mente. É permitido se mapear e medir o quão carrasco ou benfeitor de si próprio tem-se permitido ser. Quais são nossos níveis de permissividade?

Ultimamente ando em estado de sorrir. Já chorei e lamentei demais me alimentando dos meus próprios fantasmas. Seria confortável culpabilizar alguém ou me tornar vítima das circunstâncias. Aí eu resolvi escolher. É permitido escolher, selecionar, racionalizar, diminuir, aumentar, decidir. Eu opto sorrir apesar de reconhecer todas as feridas que ainda tenho a sarar. Sou um ser em construção.

É permitido comunicar o que não agrada e, óbvio, o que satisfaz também. A comunicação, ah disso eu vivo, é um elemento indispensável do processo. Mas é permitido silenciar, usufruir do próprio espaço, refletir, curtir a própria companhia, se refazer. Silenciar também é comunicação. E quando deixo de comunicar algo que tornaria uma relação mais forte e propícia ao sucesso, negligencio por medo e nego o crescimento de todos os envolvidos. Comunicação pode ser um elo de força ou fraqueza.

Ultimamente ando em estado de escrever. Bilhetes, e-mails, no diário, nos rascunhos, em bloco de notas, aqui e acolá. Registro as memórias caso um dia, as perca e saiba onde encontrá-las. Não dá mais pra confiar na cabeça e nem no que se é capaz de escrever ou falar após três taças de um tinto. Então se for para se perder, que seja pelas palavras: minha espada, vida e ressurreição. É permitido escrever o que se sente. Cada qual canaliza loucura e lucidez como pode.

Dia desses conheci um personagem que comprou um avião datado 1961, se afirmou piloto após seis horas de voo e pegou a antiguidade nos Estados Unidos. Após peripécias com a máquina voadora pela América Central, posou em Aracaju. Meu espírito aventureiro em estado de receber novas histórias, sorrir e escrever, não tardou em reconhecer a alma desbravadora.

Cansado de tantas voltas e viagens, meu amigo, como assim se referenciava no trovadorismo ou nos trechos de Camões, dos Lusíadas, escolheu Sergipe como lar do agora. Enquanto nas Cabrálias os índios recebiam os artefactos dos portugueses descobridores (do quê mesmo?) e se viam no espelho pela primeira vez, por aqui, o cabra se renovava como quem tivesse encontrando a própria face num reflexo d´água de oásis.

É permitido se reconstruir a cada dia. E em cada novo capítulo, a exatidão matemática, justa, contudo, nem sempre perceptiva, traz na memória toda a jornada que precisou ser percorrida para se chegar ao hoje. Ultimamente permito preocupar-me muito menos. Estamos sendo amparados, guiados, fortalecidos, encorajados e amados a ponto de confiar, aceitar e se permitir.

A garantia está em respeitar o processo. O livro da vida de cada pessoa registra os pontos evolutivos. Quem você era há 10 anos? Se até um grão de areia no deserto está sob a influência dos ventos, o que diremos de nós? Seremos levados por correntes de forças acima do nosso discernimento mortal e de um inconsciente que opera grande parte dos nossos atos. Estamos definitivamente onde precisamos estar, por poder mobilizador interno. É permitido mover-se intuitivamente e render-se ao inexplicável.

Meu amigo do trovadorismo, mutável e profundamente humano, tem me contado estas experiências de fazer pouso forçado, dormir em qualquer lugar, realizar sonhos e quebrar as regras. Sim, é permitido quebrar e mudar as regras. São os inconformados que mudam este mundo. Os questionadores saem do limbo, e portanto, incomodam. E quem está aqui para agradar? Deixemos isso a cargo dos políticos.

Ultimamente ando em estado de acordar. E eu sou aquele tipo de pessoa que quando levanto, quero levantar a casa inteira. Não vim ao mundo a passeio, trabalho-me incansavelmente. Canto, escrevo e mergulho profundo no meu ofício de escrivã. É que só pode receber, quem dá. Só pode sorrir, quem já chorou. Só pode escrever, quem vive intensamente e sente o parto que é se expor em cada texto. “Vamos nos permitir”, é o refrão do rock que me vem à cabeça. E quando eu partir, fincarei na grama do jardim em que jaz os meus sonhos: é permitido amar, recomeçar e acreditar. Em si, primeiramente, e naquilo que faz o coração pulsar.

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